Desde sua criação no final do século XIX o audiovisual vem democratizando o conhecimento humano e facilitando sua disseminação. Mas apesar de suas vantagens, essa bênção moderna também traz seus perigos escondidos.
Eu sou Walk, realizador e educador audiovisual, e é sobre essas armadilhas que trataremos neste texto: os motivos da urgente importância da alfabetização audiovisual.
A linguagem audiovisual
Assim como a língua falada, a comunicação audiovisual possui suas próprias regras. A "leitura" de uma obra audiovisual — seja um filme, telejornal ou vídeo na internet — só é possível porque nós estamos acostumados a essas regras.
Nós crescemos cercados pelo audiovisual: televisão, cinema, Youtube, redes sociais. Por isso aprendemos desde cedo, informalmente, as regras da gramática audiovisual.
Mas a linguagem audiovisual foi aperfeiçoada ao longo de seu mais de um século de existência. Por isso, assim como os textos escritos, a interpretação do audiovisual depende de um aprendizado formal de sua linguagem, uma alfabetização audiovisual.
Sem o mínimo aprendizado dessa linguagem as pessoas estão cada vez mais vulneráveis a ela. E a manipulação da informação visando o controle das pessoas não é uma novidade moderna.
Nosso fascínio por histórias bem contadas
Dos contos à luz da fogueira às séries à luz do smartphone, somos atraídos pelo brilho da narrativa, das histórias bem contadas, como os insetos são atraídos pelo brilho das lâmpadas.
Uma história bem contada é como uma bela escultura: ela tem um significado, nos negamos a afirmar que é apenas um pedaço de pedra. É assim com todo conteúdo que ganha forma. É assim com a informação.
Sabendo desse fascínio, modelamos o conteúdo para que tome a forma que mais convém. É um jogo de montar em que as palavras, imagens e sons são as peças: dependendo de como você monta pode contar histórias diferentes com os mesmos fatos.
Mas isso não é novo, os gregos já brincavam de Lego.
As tragédias gregas — uma espécie de musical da Broadway da época — usavam como pano de fundo a relação entre mortais e deuses para retratar as relações sociais enquanto traziam ensinamentos cívicos e religiosos. Ou seja: as novelas de 2.500 anos atrás já manipulavam personagens e fatos para vender a visão de mundo de alguém — no caso, do Estado grego.
A manipulação da linguagem audiovisual
Do entretenimento, como as tragédias gregas, ao conteúdo jornalístico, toda
informação que chega até você passou por alguma manipulação, maior ou menor,
direta ou indireta, necessária ou de má-fé. Não existe
informação pura.
Claro que manipulação nem sempre é algo ruim. Manipular não tem, necessariamente, o sentido de forjar. Ela é necessária à comunicação, seja para cortar o que não interessa ou para tornar um tema inteligível a uma audiência não especializada.
O problema é quando a manipulação deforma o conteúdo ou está tão intrinsecamente conectada a ele que o interlocutor sequer suspeita que ela exista.
E esse tipo perigoso de manipulação sempre esteve presente no audiovisual: seja nas histórias contadas, na "moral da história" de um filme, na escolha das imagens e palavras para se noticiar um fato ou até mesmo na maneira de gravar uma cena.
A manipulação audiovisual e as Fake News
A internet, apesar de um instrumento espetacular, possibilita a formação de nichos, que muitas vezes se tornam bolhas onde as chamadas Fake News — notícias falsas veiculadas como se fossem verdadeiras — se tornam a verdade e a ma-fé o padrão.
As Fake News são amplamente utilizadas para espalhar mentiras a respeito dos mais variados assuntos, incitar ataques contra pessoas e instituições e disseminar desinformação, teorias da conspiração e conteúdo anti-ciência.
O audiovisual é uma poderosa ferramenta na disseminação das Fake News, uma vez que alcança a todos. Através dele, seja jovem ou idosa, letrada ou analfabeta, qualquer pessoa exposta ao conteúdo irá absorvê-lo de maneira rápida e eficaz, e o pior: é um potencial soldado — consciente ou não — do exército da desinformação.
A questão tende a se agravar uma vez que há avanços consideráveis nas pesquisas e desenvolvimento de tecnologias como o Deepfake, que utiliza Inteligência Artificial para, entre outros fins, trocar rostos e vozes de pessoas em vídeos, alcançando resultados impressionantes, como o vídeo abaixo.
Exemplo de Deepfake, vídeo criado com uso de Inteligência Artificial, tecnologia que vem sendo utilizada para disseminação de Fake News.
A urgente importância da alfabetização audiovisual
É simples:
Conhecer a linguagem audiovisual ajuda as pessoas a não se deixarem levar por qualquer truque ou narrativa, assim como entender como funcionam os aplicativos do smartphone nos impede de cair em golpes e ter a identidade ou as contas clonadas.
Tendo em vista o ponto em que estamos, onde o audiovisual está presente quase 24 horas por dia em nossas vidas, é importante que as pessoas saibam como ele funciona. Mas precisamos ir além.
Alfabetização audiovisual não é só o "ABC do cinema"
Com toda essa informação ao alcance de um touch, é importante ter em mente que não basta ensinar às pessoas do que são feitos os filmes, novelas e telejornais. Também é necessário prepará-las para uma leitura crítica desse material.
A importância do ato de questionar está tão ligada à alfabetização audiovisual quanto à alfabetização tradicional, onde aprendemos o ABC.
Esse pensamento é essencial é essencial para que não sejamos manipulados pelos "donos dos microfones" (e das câmeras), quem tem voz e influência no mundo onde todos podem ser produtores audiovisuais.
Entendimento da cadeia de produção
A indústria audiovisual gera empregos, paga impostos e movimenta a economia. O audiovisual vai muito além do que o produto final que se assiste na tela.
Mas o fogo das Fake News espalhou-se de modo tão avassalador que se tornou presente a ideia de que as leis de incentivo, como a Lei Rouanet, e leis de Fomento, como a Lei do Audiovisual, favorecem artistas e empresas que se alinham ideologicamente ao Governo.
Assim, também se faz necessário o mínimo entendimento do funcionamento da cadeia de produção e distribuição audiovisual no país e no mundo, do papel das leis de Incentivo e de Fomento ao audiovisual e das instituições ligadas a essa cadeia produtiva, como a Ancine e o Fundo Setorial do Audiovisual.
Mas, afinal, o que podemos fazer?
Num mundo ideal ensinaríamos nas escolas que existe a manipulação audiovisual e o potencial ilusionista dessa linguagem, incentivando a busca por outras fontes antes de pulverizar a informação recebida e enfatizando a proporção que uma informação distorcida pode ganhar.
Mas não vivemos num mundo ideal. Idealmente, as pessoas sairiam da escola com senso crítico e talvez nem fosse necessária a educação em linguagem audiovisual.
Assim, a implementação da alfabetização audiovisual, matéria de urgente importância social — talvez quase tão importante quanto o próprio letramento — cabe a todos com consciência da manipulação da informação, principalmente a quem se beneficia dela: aos veículos de comunicação, aos profissionais do audiovisual, aos comunicadores, artistas, jornalistas e influenciadores, e, claro, ao poder público (no caso do último, sob forte pressão dos primeiros).
Desenvolvo uma oficina de Alfabetização audiovisual na Era das Fake News (contratada na chamada pública nº04/2022 pela Secretaria de Esportes em Cultura de São Carlos-SP) onde usamos trechos de obras variadas para o estudo do audiovisual, discutindo características técnicas, narrativas e históricas, e suas implicações sociais e éticas.
Educação audiovisual no combate às Fake News é como ensinar a identificar se um suco foi feito com laranjas podres, já que não ensinamos a identificar se as laranjas estavam podres antes de fazer o suco.
Mas é o que podemos fazer, já que infelizmente (ou felizmente) não temos controle sobre todas as laranjeiras.
Concluindo
A alfabetização audiovisual é um tema urgente e cabe a quem conhece essa gramática e seus usos possíveis compartilhar esse conhecimento com a sociedade.
Mas também cabe aos produtores de conteúdo audiovisual a preocupação em fazer um uso consciente dessa linguagem e a pressão sobre o Poder Público, cobrando a regulamentação de ferramentas como a Inteligência Artificial e a punição quando essas forem utilização com intenção de enganar.
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