segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Cinco coisas que aprendi dirigindo

senhora e rapaz lendo texto
Terminamos de gravar e agora estamos na Pós-produção do nosso TCC, montando o material. Escrever e dirigir em trio (Nalú, Danilo e eu) facilitou um pouco as coisas por um lado, mas por outro tivemos que aprender a desapegar de ideias pessoais e aceitar ideias alheias, tanto no roteiro quanto na direção.

Tendo passado pelo momento mais tenso da produção do filme, as gravações, compartilho aqui algumas coisas que aprendi e que acho fundamentais quando se dirige um projeto, seja ele qual for.

Dirigir não é bem como a gente pensa

No fim do primeiro ano de curso boa parte dos meus colegas de classe já queria distância da direção. Alguns se descobriram em outras áreas, outros em outros cursos e outros, ainda, perceberam a dor de cabeça que é dirigir.

A diretora ou diretor não fica só sentado dizendo "ação" e "corta", essa pessoa é quem deve assistir um filme inteiro na cabeça e fazer cada área assistir o mesmo filme, e isso é trabalhoso. Lidar com gente é trabalhoso. Se você não estiver disposto a se tornar um ser humano melhor, nem comece.

Um filme é como um ônibus e se esse ônibus atrasa, bate ou não chega, o primeiro culpado é sempre quem está dirigindo. Em set, que parece ser a parte mais divertida do filme, a função do diretor é basicamente responder todo tipo de pergunta.

E antes do set também.

E depois do set.

Eu tenho medo de ir tomar água de madrugada e encontrar uma diretora de fotografia na geladeira perguntando onde ela põe a câmera. 

A primeira ideia nunca é a melhor ideia

Reescrever sempre é mais importante do que escrever. E o que um diretor tem a ver com isso? Bom, ele pode não escrever o filme no papel, mas escreve o filme na tela e, acredite, isso é tão trabalhoso quanto escrever no papel.

No audiovisual narrativo — como é o caso do nosso projeto — existe uma gramática audiovisual, uma forma de escrever o filme com imagens e sons. Um diretor, assim como um escritor, antes de desenvolver seu próprio estilo tem que entender muito bem as regras dessa gramática.

Quando você escolhe onde coloca a câmera ou o que fala para os atores não está fazendo escolhas simples, nenhuma escolha é simples, cada escolha implica uma linha da história que você conta e uma vírgula mal colocada pode pôr tudo a perder.

Uma vez gravado errado, não há como reescrever um filme. Sua última chance é uma gambiarra na montagem e isso não é bom.

Um diretor tem que escrever o filme várias vezes na própria cabeça e de várias formas diferentes e depois conversar com cada área, perguntar se isso pode ser feito, se vão ter dinheiro, se vão ter tempo, se vão ter equipamento, se vai ser seguro; e normalmente algo não vai poder ser feito porque você não vai ter dinheiro, equipamento ou porque não vai ser seguro. Por isso a primeira ideia de como escrevê-lo na tela nunca é a melhor ideia.

Planejamento é essencial

O momento mais sombrio quando se dirige é quando você chega, porque é aí que começam as perguntas: alguém da equipe pergunta "onde eu ponho a câmera", alguém do elenco pergunta "o que eu faço?" E não há muito espaço para dúvidas. Ninguém quer um diretor que não dirige.

Assim como o filme tem que estar pronto na sua cabeça antes de ser gravado, as perguntas têm que estar respondidas nela antes de serem feitas.

Em set o diretor e a equipe não têm tempo de pensar em como as coisas serão feitas porque estão muito ocupados resolvendo os problemas que surgem durante as filmagens. Por isso tudo o que vai ser feito deve sair planejado da Pré-produção.

Se você se planeja para as coisas que vão dar errado terá tempo de pensar nas coisas que vão dar mais errado ainda quando estiver gravando. 

As coisas não vão sair como o planejado

Não importa quantas vezes a produção confirmou os horários, quantas previsões do tempo consultou ou quantas vezes você ensaiou com o elenco, os problemas vão acontecer, e na maior parte das vezes são problemas para os quais você não se planejou — porque se você tivesse se planejado, eles provavelmente não teriam acontecido.

A verdade é uma só: dirigir é antes de mais nada resolver problemas e você tem que estar preparado pra eles, porque de certa forma toda dúvida vai acabar tendo que ser respondida pela direção em algum momento.

Mas a grande sacada na verdade não é resolver os problemas e sim resolvê-los depressa. Nas gravações a expressão "tempo é dinheiro" ganha vida. Por menor que seja o projeto as equipes são muito grandes, os equipamentos muito caros e as pessoas muito estressadas.

Se você for purista a ponto de querer fazer um filme exatamente como o viu na sua cabeça vai acabar não fazendo filme nenhum. Você tem que saber reverter as adversidades e se adaptar às condições que lhe são impostas.

O filme tem vida própria

Por mais que você tenha se planejado o filme finalizado não vai ficar exatamente como você o viu na sua cabeça. Em alguns momentos ele vai ficar melhor, em outros, pior.

O filme se transforma, ele cresce o tempo todo, vai amadurecendo, ficando maior. Sempre que você assistir o filme depois de pronto ele vai estar diferente, assim como cada pessoa que assisti-lo vai ver um filme diferente.

No fim o filme é como um filho: você toma conta um tempo, mas ele tem sua própria vida e uma hora ele toma o próprio rumo. E o máximo que você pode fazer é acompanhar de longe e torcer pra que ele pegue o melhor caminho possível.

(Atualização: Assista aqui o curta A Dama das Onze Horas.)

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