sexta-feira, 13 de julho de 2018

Um roteiro a seis mãos

pessoas escrevendo em lousa branca
Escrever é uma experiência pessoal e muitas vezes solitária, mas no caso do audiovisual escrever em conjunto se torna, além de um desafio, uma forma de encontrar soluções para determinados problemas.

Quando Danilo propôs um projeto de TCC a três — ele, Nalú e eu — o primeiro desafio foi encontrarmos a história que gostaríamos de contar. Fizemos um levantamento de ideias, destilamos todo o nosso arsenal criativo e chegamos ao A Dama das Onze Horas, história que une uma trama familiar ao Catolicismo Místico do interior paulista.

Uma longa pesquisa foi feita para entendermos as diferentes nuances culturais do interior do estado de São Paulo. Uma pesquisa de campo foi realizada por toda a equipe reunindo entrevistas que nos ajudaram a construir a história e, principalmente, escrever os diálogos.

Foi um processo de escrita árduo. Quando o primeiro tratamento finalmente foi fechado ele tinha dezenove páginas, para um filme de quinze minutos.

Mas reescrever sempre é mais importante do que escrever. A primeira versão de um roteiro nunca é a final; sequer a última versão de um roteiro é a final, ele vai continuar sendo reescrito, infinitas vezes, primeiro no set de filmagem, depois na montagem e, por último, na cabeça de cada pessoa que assistir o filme.

Seis mãos podem se atrapalhar às vezes, mas três cabeças pensam melhor do que uma. Escrever em equipe exigiu que cada um de nós desistisse de ideias pessoais, mas também nos ajudou a sair de problemas dos quais um roteirista sozinho demoraria muito mais tempo.

Essa experiência nos fez crescer. Aprendemos a desapegar de vícios narrativos, isso é importante quando se está começando porque nos fez criar um senso crítico mais apurado para nossas próprias ideias.

fichas e estojo sobre mesa de madeira
Escaleta: parte do processo de escrita do roteiro.

Atrasados, combinamos uma reunião intensiva num final de semana para fechar o roteiro. Na manhã do dia 21 de abril, sábado. Nos sentamos com todos os problemas e pontas soltas sobre a mesa e ficamos nos entreolhando durante vinte minutos. Não posso falar por Nalú e Danilo, mas a única coisa que passava pela minha cabeça era: não vamos conseguir.

No final do domingo estávamos tão afinados que chegávamos a completar as frases um do outro e a pensar a mesma fala para um diálogo ao mesmo tempo. É mister que se não tivéssemos um bom relacionamento esse processo estaria fadado ao fracasso.

Dois dias de sangue, suor, lágrimas e miojo depois, tínhamos diante de nós o sexto tratamento: dez páginas que após lermos não acreditávamos terem sido escritas por nós. Só havia uma explicação possível: quando íamos à cozinha ou à varanda fazer um intervalo, a Fada do Roteiro entrava escondida na sala e reescrevia as páginas que já havíamos escrito.

Aceitamos a bênção continuamos o processo de Pré-produção do filme como se nada tivesse acontecido.

Hoje é o primeiro dia de filmagem.

(Atualização: assista aqui o curta A Dama das Onze Horas.)

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