segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Esculpindo o Tempo

Andrei Tarkovski, o aclamado diretor de, entre outros, O Espelho, Solaris e Stalker, diz em seu livro, Esculpir o Tempo, que o fator determinante do cinema, o que o torna uma obra de Arte diferente das outras, é o ritmo, o tempo fluindo entre as tomadas. Ele defende que um filme nasce durante a filmagem e não na montagem.

Eu concordo, a montagem deve servir ao filme e não a filmagem ser servida como um prato cru na mesa de corte. Não quero desmerecer o trabalho do montador, a montagem é parte importante do processo cinematográfico, mas não a mais importante.

A parte mais importante do processo de se fazer um filme é filmá-lo, efetivamente. Se você tem de recorrer à montagem para que o filme tenha um ritmo geral, algo nas filmagens não estava certo. Ou pior: algo no roteiro.

Assistindo o material bruto do nosso TCC, A Dama das Onze Horas, para a escolha das tomadas senti que tudo antes dos momentos que precediam a montagem não foi em vão. As imagens que banhavam de luz a sala escura e inundavam nossas retinas tinham seu próprio ritmo e mostravam a realidade de um mundo criado apenas para que elas existissem. Foi a primeira vez durante todo o processo em que eu encostei na cadeira, respirei fundo e pensei "as coisas estão dando certo".

Uma amiga costuma dizer que esculpir é mais fácil do que escrever, porque o escultor precisa tirar do bloco tudo o que não é a escultura, mas o escritor sequer tem um bloco. O primeiro tratamento do roteiro é seu bloco e se seu bloco é torto, muito duro ou muito macio, o processo todo pode ser prejudicado.

Tínhamos muito o que tirar do nosso bloco, com suas 19 páginas cheias de diálogos absurdamente expositivos, mas o importante é que não faltava nada da obra nesse bloco, um bloco que terminou com 10 páginas. Esprememos bem essa laranja.

Escrever um roteiro que você mesmo vai dirigir consiste, entre outras coisas, em saber o que você não vai conseguir dirigir. Você faz a obra de um jeito diferente, pensando em onde a escultura será exposta, em como as pessoas irão olhar para ela, em que posição ela deve ficar.

O processo de dirigir um filme, de esculpir o tempo, é também um processo de saber o que você é e o que não é, o que você pode fazer e o que ainda não consegue, mas principalmente de esculpir a si próprio, tirar do bloco tudo o que não é você e deixar apenas a essência, apenas o que você acredita.

Apenas assim você pode, no dia da exibição, encostar na cadeira, respirar fundo e pensar "as coisas deram certo, afinal".

escultura homem esculpindo-se


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