sexta-feira, 25 de agosto de 2023

A linguagem audiovisual

projetor de cinema sobre rolo de filme


Quando assistimos a um filme, série, uma matéria jornalística ou até mesmo a um meme da internet, nós o entendemos. Conseguimos juntar seus pedaços e fazê-los ter sentido. Mas você já parou pra pensar por que nós entendemos um vídeo?

Eu sou o Walk, realizador e educador audiovisual e hoje vamos entender o que é, como evoluiu e como "ler" a linguagem audiovisual.

O que é a linguagem audiovisual?

O audiovisual, assim como a linguagem escrita, tem uma gramática própria. Cada série, filme ou reels pode ser destrinchado e analisado, do mesmo jeito que podemos dividir este texto em parágrafos, os parágrafos em frases, as frases em palavras e as palavras em letras.

Essa linguagem audiovisual não serve apenas para nos contar histórias: ela também é utilizada para vender um ponto de vista e ao longo de sua história foi moldando-se às necessidades e valores de seus realizadores, sejam eles artistas, comunicadores, vendedores ou políticos.

A história da linguagem audiovisual

No início do século XX o audiovisual se concentrava no recém-inventado cinema, que ainda era visto como simples entretenimento. Mas com a descoberta da montagem e o desenvolvimento de técnicas que se beneficiavam dela para "escrever" histórias com as imagens em movimento e o som, a linguagem audiovisual foi sendo aperfeiçoada.

A partir a segunda metade do século XX, com o advento da televisão, a linguagem audiovisual foi definitivamente popularizada conforme entrava nos lares das pessoas.

Meio século mais tarde a tecnologia dá cada vez mais acesso aos meios de consumo e produção audiovisual, mas também nos defronta com a dificuldade cada vez maior em traçar a barreira entre a informação e a construção narrativa utilizada para transmitir essa informação.

A linguagem é viva

pinturas rupestres


Assim como a língua escrita, a linguagem audiovisual é viva, ou seja, conforme as pessoas a utilizam, ela se transforma através de seu uso constante e da disseminação de novas formas de utilizá-la.

Por exemplo, antigamente, as pessoas se tratavam formalmente por "vossa mercê'. Com o tempo esse pronome de tratamento foi sendo contraído, para "vossemecê", "vosmecê", depois "vancê", até chegarmos, nos dias atuais, à palavra "você".

Essas mudanças não ocorrem da noite para o dia, elas acontecem lentamente e se dão devido à incorporação de certos "maneirismos" ao vocabulário geral no dia-a-dia.

Do mesmo modo, hoje assistimos a um meme na internet composto por duas gravações diferentes e nosso cérebro automaticamente cria um contexto para uni-las. Mas no início do século passado as pessoas não entenderiam as duas imagens como parte de uma mesma "história".

Essa evolução na linguagem audiovisual aconteceu, a princípio, por conta das experimentações dos cineastas que buscavam aperfeiçoar a linguagem. Depois, com a chegada da televisão, porque a linguagem precisava atingir públicos cada vez maiores e de diferentes classes sociais.

Hoje a evolução da linguagem audiovisual é constante porque há cada vez mais pessoas produzindo conteúdo, e porque há cada vez mais nichos a serem contemplados com essa produção.

Produção, distribuição e exibição

pessoas gravando com iphone
O filme "Tangerina" (2015) foi gravado com iPhones.


O fazer cinematográfico comercial se apoia sobre um tripé de produção, distribuição e exibição. Esses três passos correspondem às fases em que se produz o filme (captação de recursos, gravações, montagem), se disponibiliza o filme para exibição (busca pelas "janelas de exibição") e se exibe o filme (em salas de cinema, televisões ou em plataformas de streaming).

Essa cadeia, que poderia contar com diferentes agentes responsáveis pela produção, distribuição e exibição, já não é o único modo de se operar. Na verdade, hoje há diversas formas de se trabalhar com audiovisual, comercial ou não.

Hoje, uma única pessoa, com um aparelho que cabe no bolso, pode sozinha produzir, usar uma plataforma para exibir e, através das redes sociais, distribuir sua produção audiovisual com relativa simplicidade.

Se por um lado é importante democratizar o acesso à produção audiovisual e termos vozes mais plurais nessa cadeia, por outro temos que tomar cada vez mais cuidado ao passar adiante esse tipo de conteúdo, pois estamos mais vulneráveis a conteúdo manipulado, como as fake news.

A gramática audiovisual

Então vamos entender melhor como é a linguagem audiovisual para podermos ler tecnicamente um filme, série ou qualquer outro vídeo com o qual tenhamos contato. Para isso, vamos tomar como base os filmes, que normalmente possuem a estrutura mais completa.

As partes de um filme

homem em ilha de edição
O editor de filmes Walter Murch em sua sala.


Assim como um texto pode ser dividido em parágrafos, frases, palavras e letras, um filme pode ser dividido em partes menores, que formam sua estrutura. Essas partes são:

Quadro (Frame)

O quadro é literalmente o que você vê "enquadrado" na tela. Tudo o que você consegue ver num filme está "dentro do quadro". Um vídeo nada mais é do que uma sequência de fotografias (quadros) que passam muito depressa, causando a sensação de movimento.

A taxa de quadros por segundo de um vídeo é chamada de frame rate, ou fps (frames per second)Nosso cérebro entende uma imagem rodada a partir de 16 fps como uma imagem em movimento. No cinema o padrão de reprodução é de 24 fps, na maioria dos dispositivos de captura o padrão é 30 fps.

O enquadramento é a escolha que o diretor faz do que vai ou não aparecer em quadro. O enquadramento pode ser fixo, mantendo-se o tempo todo num só lugar, ou móvel, iniciando-se em um lugar e terminando em outro.

Plano

Plano é o conjunto de frames limitado espacialmente pelo enquadramento, seja ele fixo ou móvel, e temporalmente pela duração daquele plano. Ou seja, é um trecho de filme rodado ininterruptamente entre dois cortes — que podem ser feitos durante a gravação na própria câmera ou durante o processo de montagem.

Hoje, com raras exceções, a montagem é feita em ilhas de edição digitais, utilizando softwares de edição. Mas antigamente, quando o audiovisual era captado apenas em película cinematográfica, a edição era um processo manual (quase artesanal) e a película era literalmente cortada, por isso o nome corte.

Cena

Uma cena é um conjunto de planos justapostos delimitados por um recorte de espaço e tempo. Por exemplo: se você assiste uma conversa entre duas pessoas numa rua pela manhã e logo após vê um homem cozinhando em casa, essas são duas cenas diferentes.

Do mesmo modo, se você vê um homem cozinhando em casa pela manhã e logo após o mesmo homem cozinhando na mesma casa, mas à noite, essas também são cenas diferentes.

Ou seja, sempre que mudamos o espaço ou o tempo, nós mudamos de cena.

Sequência

A sequência é um conjunto de cenas interligadas pela narrativa fílmica. Se você vê várias cenas ocorrendo em lugares diferentes, mas que têm alguma relação entre si dentro da história, aquilo é uma sequência.

Ato

diagrama de atos em roteiro de filme
Reprodução de página do livro "Manual do roteiro".
Aqui nós vamos entrar um pouquinho mais profundamente em roteiro cinematográfico, mas não vamos nos aprofundar.

A divisão em atos é a mais comum no cinema narrativo. Um filme narrativo normalmente é dividido em três atos, ou três grandes blocos de sequências ou cenas, cada uma com uma função específica.

Primeiro ato: onde o espectador conhece a personagem principal e o chamado "mundo comum", o lugar onde essa personagem vive. No fim desse ato há uma "quebra", que obriga o protagonista a enfrentar uma jornada de aprendizado.

Segundo ato: no segundo ato acompanhamos a protagonista no "mundo especial", onde ela vive uma aventura, aprende usar seus poderes (que pode ser visão de calor ou cantar muito bem), enfrenta vilões (que podem ser dragões ou uma depressão), faz aliados e amadurece. Esse ato é o mais longo do filme.

Terceiro ato: aqui a personagem principal descobre seu lugar, que pode ser no mundo especial, mas normalmente é o mundo comum. Mas ela nunca retorna sozinha, traz sempre o chamado "elixir", o prêmio de sua aventura, que pode ser um tesouro ou um grande aprendizado.

O plano fala

O conteúdo fala, mas a forma também. O enquadramento escolhido pelo diretor o ajuda a contar a história e pode causar no espectador determinados sentimentos. Por isso, os planos têm nomes, que vamos aprender agora.

Os nomes dos planos podem variar de autor para autor, mas no geral a nomenclatura costuma seguir um certo padrão.

Plano geral

Esse é o plano utilizado para mostrar todo o cenário, geralmente em cenas externas, contextualizando o espectador. Ele também é utilizado para mostrar a pequenez das personagens diante do ambiente.

três homens em cemitério deserto
Plano geral no filme "Três homens em conflito".









Plano aberto

Tem as mesmas funções do plano geral, mas é mais utilizado para cenas internas. Quanto mais o diretor quer quer mostrar o cenário, mais ele pede para o câmera "abrir o plano". Alguns autores chamam o plano geral de plano aberto.

luxuoso saguão de hotel
Plano aberto em "O iluminado".









Plano médio

É um plano mostrado a uma distância menor do personagem ou objeto, mostrando o ambiente mas deixando de fora parte do cenário. Alguns autores chamam de médio o plano que mostra uma figura humana de corpo inteiro.

mulher brincando em piscina à noite
Plano médio em "Que horas ela volta".









Plano americano

Chamamos assim o plano que mostra uma pessoa enquadrada do joelho para cima. Esse plano era muito usado nos faroestes norte-americanos por possibilitarem que o diretor mostre ao mesmo tempo o coldre do caubói e sua expressão facial durante as cenas de duelo.

caubói segurando espingarda
Plano americano em "No tempo das diligências"









Primeiro plano (close)

Aqui o foco é o rosto da pessoa ou no objeto, mostrando-o bem de perto, não se importando em dar muitas informações sobre o cenário.

mulher de chapéu e lenço rosa chorando
Close em "Barbie".









Plano detalhe (close-up)

O plano-detalhe, como o próprio nome diz, é ainda mais fechado que o anterior, mostrando em detalhes da expressão facial da personagem ou do objeto.

mão segurando chave
Plano detalhe em "Interlúdio".









Plongée e contra-plongée

Esses nomes dizem respeito à altura da câmera. No plano plongée (mergulho em francês) a câmera fica acima da linha dos olhos da personagem ou da linha do horizonte da cena (como se estivesse se preparando para "mergulhar").

Já no contra-plongée é o contrário, a câmera fica abaixo da linha dos olhos da personagem ou da linha do horizonte da cena. Geralmente o plano plongée é utilizado para mostrar personagens que estão em desvantagem, oprimidos, o contraplongée para mostrar personagens que estão em vantagem.

homem grande encarando homem pequeno
Exemplo de plongée e contraplongée em "De volta para o futuro".







Concluindo

Como vimos, um produto audiovisual pode ser lido e analisado não apenas pelo seu conteúdo, mas pela sua forma. Essa leitura da linguagem audiovisual pode te ajudar a entender melhor o que você assiste e não se deixar cair em armadilhas como vídeos falsos e fake news.

Quer conhecer mais afundo a linguagem audiovisual? Acompanhe as postagens no blog e visite o canal O Ponto do Ônibus Espacial no Youtube. Em caso de dúvidas ou sugestões é só fazer um comentário. Até a próxima!

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