quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A luz e as sombras na parede

projeção de homem em parede


Enquanto testávamos os arquivos, quase uma hora antes da estreia, já havia uma longa fila do lado de fora do anfiteatro. Toda aquela gente queria seguir uma antiga tradição: sentar-se no escuro ao redor da luz refletida na parede e ouvir um relato, fugir da realidade, entrar em um mundo novo.

As formas de contar histórias mudaram drasticamente, mas a busca ao recebê-las é a mesma: sentir-se envolvido, ouvir esses contos ancestrais revestidos através dos milênios por camadas e mais camadas de simbolismo e imaginar ser um dia, daqui a centenas ou milhares de anos, as personagens das histórias que estão por vir, tornando-se parte da própria História.

É interessante como na forma de contar histórias hoje os contadores também sejam ouvintes, podendo ver e ouvir cada uma das pessoas envolvidas na construção desses mundos: nas palavras das personagens, em suas roupas, no semblante de quem as representa, na forma como a luz incide sobre seus rostos, nos sons que quebram o silêncio desses universos, em cada corte e recorte desses cosmos de luz e sombra.

Na escuridão silenciosa entre os aplausos e o primeiro recorte da história seguinte, podíamos escutar os sussurros talvez até os pensamentos de quem via aqueles mundos pela primeira vez e sentir que cada uma daquelas pessoas se via refletida naquela projeção, assim como nos víamos nas sombras desde a primeira história contada.

E eu posso imaginar — na verdade eu posso imaginar — como todas aquelas mais de quatrocentas pessoas foram embora, construindo em suas mentes o que havia além dos recortes, fora daqueles quadros de luz e de sombras projetados na parede.

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