Enquanto testávamos os arquivos, quase uma hora antes da estreia, já havia uma longa fila do lado de fora do anfiteatro. Toda aquela gente queria seguir uma antiga tradição: sentar-se no escuro ao redor da luz refletida na parede e ouvir um relato, fugir da realidade, entrar em um mundo novo.
As formas de contar histórias mudaram drasticamente, mas a busca ao recebê-las é a mesma: sentir-se envolvido, ouvir esses contos ancestrais revestidos através dos milênios por camadas e mais camadas de simbolismo e imaginar ser um dia, daqui a centenas ou milhares de anos, as personagens das histórias que estão por vir, tornando-se parte da própria História.
É interessante como na forma de contar histórias hoje os contadores também sejam ouvintes, podendo ver e ouvir cada uma das pessoas envolvidas na construção desses mundos: nas palavras das personagens, em suas roupas, no semblante de quem as representa, na forma como a luz incide sobre seus rostos, nos sons que quebram o silêncio desses universos, em cada corte e recorte desses cosmos de luz e sombra.
Na escuridão silenciosa entre os aplausos e o primeiro recorte da história seguinte, podíamos escutar os sussurros — talvez até os pensamentos — de quem via aqueles mundos pela primeira vez e sentir que cada uma daquelas pessoas se via refletida naquela projeção, assim como nos víamos nas sombras desde a primeira história contada.
E eu posso imaginar — na verdade eu só posso imaginar — como todas aquelas mais de quatrocentas pessoas foram embora, construindo em suas mentes o que havia além dos recortes, fora daqueles quadros de luz e de sombras projetados na parede.

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