domingo, 5 de novembro de 2017

Os problemas que surgem na locação

menino gritando sob céu azul


Dirigir um filme consiste basicamente em resolver problemas. Alguns, como uma locação problemática, podem ser evitados na Pré-produção. Mas às vezes não há escolha: tem que ser gravado ali, e às vezes simplesmente nos expomos ao problema, por falta de experiência ou excesso de confiança.

No nosso caso foi por falta de experiência — porque confiante mesmo, ninguém tava.

Se me perguntassem agora porque ninguém — inclusive eu — se negou a rodar nosso filme numa estação ferroviária eu não saberia o que dizer.

Comprando o risco

Quando uma locação é visivelmente problemática ela traz consigo uma pergunta principal, quase sempre óbvia. A pergunta óbvia nesse caso era: e o trem? E a resposta, de uma simplicidade assustadora era esperamos ele passar. É claro que a vida não é tão simples assim.

Mas a decisão final é do Diretor, e eu comprei o risco.

Na manhã da primeira diária do curta Céu sem cor já tivemos vários problemas e as cenas nem eram tão complexas. Cheguei a sentar com a Nalú (Roteirista e Primeira Assistente de Direção) no domingo depois das gravações e refazer a decupagem da terça-feira, última diária.

Derrubamos vários planos e acrescentei um "plano de emergência"— toda a conversa da cena com as duas personagens em quadro — para garantir que pelo menos teríamos o diálogo todo.

Terça-feira, 24 de outubro de 2017, 7h30: começamos a descarregar o equipamento; repassamos a ordem do dia, o que vamos gravar e a que horas; a Direção de Arte prepara os atores, eu me acalmo e converso com eles enquanto Som e Fotografia terminam seus rituais preparatórios.

Gravando

Tudo pronto: "som, luz, câmera e..."

"TREEEM!"

Uma locomotiva aponta lentamente na curva a Sudoeste... e não é um trem de carga comum: ele traz um enorme carregamento de dormentes . Me preparo para o pior: se eles forem descarregar esses dormentes acaba-se a diária. A locomotiva para longe, pergunto para foto e som se as condições de luz e ruído são aceitáveis, vamos rodar o plano de emergência.

Tudo pronto:  "som, luz, câmera e..."

O trem volta a se movimentar. O trem se vai. Aplausos. Fogos de artifício...

Gravamos rapidamente o plano de emergência e seguimos. Em acordo fechado com a Produção atrasamos o almoço em meia hora, o suficiente para cumprirmos os planos previstos para o período da manhã.

Mais um trem, o sangue da equipe congela, mas esse passa direto. Isso liga a chavinha do senso de urgência em toda a equipe, nós não perdemos tempo com mais nada.

O que não mata a diária, adianta a gravação

A tarde foi mais tranquila, menos planos, sem trem. Terminamos meia hora antes do previsto. Começamos a desprodução. Henrique, Danilo e eu ficamos na estação cuidando de algumas coisas que não couberam no carro e, como só acontece no cinema, um trem carregado de dormentes para na estação assim que nos sentamos.

Se os trens da manhã não tivessem virado a chavinha da urgência na equipe e não estivéssemos meia hora adiantados provavelmente teríamos problemas com os últimos planos.

Quem diria que o trem, no fim das contas, ao invés de nos atrasar nos adiantou?

Mas também serviu para aprendermos melhor que riscos valem a pena serem corridos em troca da "locação ideal".

(Assista aqui o curta Céu sem cor.)

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