terça-feira, 6 de agosto de 2024

Copia, mas não faz igual!

Recentemente fiz um curso online sobre como usar ferramentas de Inteligência Artificial para aumentar a produtividade. É um desses cursos curtos para profissionais ocupados, com aulas de 10 minutos gravadas com profissionais bem-sucedidos de grandes empresas — e que não necessariamente têm vocação para ensinar.

Embora eu não seja fã desse formato, achei que para o público-alvo (do qual eu definitivamente não faço parte) ele funciona bem: uma hora e você termina um módulo; uma hora por dia e em uma semana: parabéns, mais um certificado para o Linkedin (o meu eu já postei).

Talvez essa ânsia de enfiar o conteúdo em aulas do tamanho de tuoriais não seja uma verdade absoluta. O curso que eu fiz é claramente um desses cursos-isca, com a principal função de pescar alunos para o conteúdo pago na masterclass final. A forma do curso me irritou, mas o que me preocupou foi o conteúdo.

Em boa parte das aulas, o professor ensina a utilizar uma IA generativa, que gera conteúdo através de comandos, ou prompts, e explica como escrever o melhor prompt possível para seu objetivo. Até aí tudo bem. O problema é que os alunos não são instruídos a criar um prompt que deixa a cargo da IA organizar o conteúdo que ele inseriu, e sim gerar praticamente o conteúdo todo. Com prompts do tipo:

"Crie uma apresentação para aumento da produtividade através de IA."

Um clique e a apresentação estava pronta. Não houve sequer um direcionamento do objetivo (em algumas aulas havia, mas ainda assim o conteúdo todo era gerado pela ferramenta).

Ao fim de todas as aulas os alunos são orientados a "checar o conteúdo gerado". Mas, convenhamos, qual a probabilidade de alguém que gera uma apresentação inteira numa IA generativa ter o trabalho de checá-la se nem o "trabalho em si" de criar a apresentação essa pessoa teve?

O problema aqui não é a ferramenta, mas a cultura que estamos criando ao redor dela.

A Inteligência Artificial é um passo importante no processamento de grandes volumes de dados e pode ajudar a aumentar significativamente a produtividade organizando ideias e resumindo relatórios para apresentações ou buscando padrões e cruzando dados para análise, por exemplo.

Mas estamos cada vez menos atentos e cada vez menos envolvidos. Estamos perdendo a oportunidade de usar a ferramenta a nosso favor. Ao invés de deixarmos a ferramenta fazer o trabalho pesado, estamos deixando ela fazer o trabalho todo. Isso gera um mundo cada vez mais morno, pasteurizado, rançoso: uma estrutura em tópicos caçados na rede e colados um ao outro com Super Bonder.

Quem garante que os roteiros do curso inteiro não foram escritos por uma Inteligência Artificial?

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