Hoje, uma pessoa com um smartphone pode sozinha produzir, exibir e distribuir sua produção nas redes sociais. O audiovisual se tornou uma poderosa arma das ditas Fake News, que disseminam conteúdos anticiência, contra a Constituição e os Direitos Humanos.
Eu sou o Walk, realizador e educador audiovisual, e hoje vou apresentar o projeto Alfabetização audiovisual na era das Fake News, que ensina os mecanismos de manipulação audiovisual para ressaltar a responsabilidade de todos nós enquanto criadores, consumidores e difusores de conteúdo.
Educação de base deve passar pelo audiovisual
O audiovisual agora é parte da nossa rotina. Estamos imersos num mundo de sons, cores e imagens em movimento. Isso teve início no século 20, quando a televisão acelerou o desenvolvimento da linguagem audiovisual.
Hoje, a tecnologia dá cada vez mais acesso a meios de produção audiovisual, mas também nos defronta com a dificuldade em traçar a barreira entre a informação e a construção narrativa criada a partir dessa informação.
A cadeia sobre a qual se apoiava o fazer cinematográfico, com diferentes agentes responsáveis pela produção, distribuição e exibição, já não é exclusiva. Hoje, uma única pessoa pode produzir, usar uma plataforma para exibir e distribuir sua produção nas redes sociais.
É nesse contexto que o audiovisual se tornou um dos tentáculos das Fake News, conferindo através da manipulação da gramática audiovisual um verniz de legitimidade a tópicos anticiência, contra a Constituição, contra os Direitos Humanos, entre outros conteúdos prejudiciais.
Assim, nossa responsabilidade enquanto atores desse processo se dá em todas as esferas: na produção, no consumo crítico e checagem de fontes e na difusão consciente dessas produções.
O projeto Alfabetização audiovisual na era das fake news nasce desse senso de responsabilidade enquanto cidadão consciente do alcance e da responsabilidade da minha produção audiovisual, assim como da minha difusão de outras produções.
O projeto se divide em várias frentes, sendo a primeira delas a sistematização desse processo de alfabetização em forma de uma oficina cultural.
Saindo da caverna
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| Cena do filme Matrix: alusão ao mito da caverna de Platão. |
Da mesma forma, uma vez que se nasce imerso e atuante no mundo audiovisual (ainda que nem sempre conscientemente), torna-se difícil lançar sobre ele visão crítica. Fica evidente a importância de difundir o audiovisual como um processo de construção, onde o produtor manipula e, muitas vezes, distorce o significado do material.
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| O show de Truman é outra alusão ao mito da caverna, representada no filme justamente por um programa de televisão do qual Truman não sabe que é protagonista. |
O processo de alfabetização audiovisual visa apresentar às pessoas os elementos básicos da manipulação audiovisual e incentivar o uso desse ferramental para a leitura crítica e a produção e disseminação de conteúdos conscientes.
A proposta é apresentar um caminho para que as pessoas não apenas saiam da caverna, mas também não deixem que outras pessoas continuem ou caiam nela.
O ABC do audiovisual
No livro A linguagem secreta do cinema Jean-Claude Carrière faz uma reflexão sobre a chamada “gramática da linguagem audiovisual”. Essa linguagem não serve apenas para nos contar histórias, ela também é utilizada para vender um ponto de vista, nos convencer, e ao longo da história foi moldando-se às necessidades e valores dos diferentes povos e épocas.
Precisamos, então, iniciar o processo de “alfabetização audiovisual”, apresentando os mecanismos através dos quais se dá a manipulação da informação e criando consciência de seu alcance e gravidade.
Reaprendendo a ler e a escrever com as imagens e os sons
O processo de alfabetização audiovisual passa por duas linhas de aprendizado: a primeira, mais técnica, diz respeito à dissecação de um produto audiovisual em sequências, cenas, planos e quadros e as respectivas ferramentas que podem ser aplicadas a cada uma dessas, assim como as ferramentas de manipulação dos aspectos sonoros dessa obra.
A segunda, com viés sociocultural, baseia-se na leitura crítica dessa obra a partir não apenas do estudo de suas partes e do todo, mas também da análise de sua inserção dentro do contexto histórico, político e econômico.
Esse aprendizado se dá através do consumo e discussão de trechos de filmes, matérias jornalísticas, programas de televisão e vídeos da internet, da discussão em grupo e da prática básica de produção de vídeos.
Algumas ferramentas e formatos audiovisuais são debatidos, instigando a discussão de que essa “gramática audiovisual” pode ser (e é) utilizada no sentido de conformar ou até mesmo distorcer a mensagem através dos recursos de transformação — principalmente a montagem, para provar um ponto de vista.
Na prática
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| Alunos em aula prática da oficina de alfabetização audiovisual. |
Como projeto final, os participantes fazem uso do conhecimento adquirido em conjunto e de seu próprio repertório pessoal para criar, em grupos, breves materiais audiovisuais através da montagem de material captado por eles próprios — contando uma história, defendendo um ponto de vista ou, até mesmo, gerando sentimentos através da abstração.
Esse exercício visa dar aos participantes a noção de como se dá o processo de produção audiovisual e explicitar a responsabilidade que cada um de nós tem enquanto agente ativo da cadeia audiovisual, seja assistindo, distribuindo — direta ou indiretamente — ou produzindo conteúdo.
O objetivo final é o entendimento de que através da manipulação um ponto de vista pode ser vendido a despeito de preceitos básicos que o contradigam ou dos fatos mais ou menos objetivos que o material bruto pode oferecer quando analisado sem o adorno desses recursos.
Espera-se, assim, que as sementes do olhar técnico e do pensamento crítico resultem em posturas sociais e artísticas mais responsáveis no que tange à expressão e à leitura do audiovisual.
Pretende-se que essa postura não se desenvolva apenas individualmente mas também em grupo, nos debates ao longo do projeto, e que seja possível verificá-la na apresentação dos exercícios práticos e na posterior discussão em relação a eles, analisando os temas, conteúdos, formas e ferramentas escolhidas para a realização dos mesmos.
Balanço dos primeiros resultados
O projeto de oficina cultural Alfabetização audiovisual na era das Fake News, vencedora de edital na cidade de São Carlos (chamada pública nº 04/2022), foi contratada pela Secretaria de Esportes e Cultura da cidade em 2023.
Ao longo do primeiro ano, os resultados positivos renderam também a contratação de uma versão compacta para duas apresentações durante a "Parada Pedagógica de Educação Infantil" da cidade, em 2023, e para o 1º Congresso Brasileiro de Pesquisa, Inovação Tecnológica e Práticas Pedagógicas (I COBPIT), em 2024.
As primeiras sementes
Durante o primeiro ano de aplicação da oficina alunos regulares e esporádicos de 9 a 28 anos participaram das aulas, assistindo conteúdo e discutindo aspectos como montagem, uso do som, contexto histórico e sociocultural, roteiro e possíveis interpretações dos mesmos.
Foram seis meses de aulas semanais ministradas em um espaço público (CEU das Artes), saídas fotográficas e videográficas para estudo de técnicas de captação na prática e a gravação do projeto final em locação escolhida pelos alunos.
Destaca-se o comentário de um garoto de 10 anos que durante discussão sobre o que é uma "Fake News" (termo que até então desconhecia) levantou a mão e perguntou:
Quer dizer então que se alguém me mostrar um vídeo falando alguma coisa sobre cachorro, eu tenho que perguntar pro meu tio veterinário se aquilo é verdade antes de sair falando pros meus amigos?
Esse comentário espontâneo de uma criança prova que a simples discussão do problema causa uma tomada de consciência de que ele existe e de como deve ser combatido.
Os primeiros frutos
O trabalho final da primeira turma, Fake Nilson: tudo o que ele toca vira fake, foi exibido em dezembro de 2023 no Centro Municipal de Artes e Cultura (CEMAC) de São Carlos e gerou importantes discussões entre o público em conversa realizada após a exibição.
Os bons resultados renderam nova contratação da oficina pela prefeitura municipal de São Carlos para o ano de 2024, com proposta reformulada para atender demandas específicas da região onde as aulas serão ministradas.
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